13/05/2008

“Não há nenhum medicamento melhor do que uma boa conversa"

Leia entrevista com o médico neuropsiquiatra Lívio Chaves sobre os transtornos que acometem os adolescentes

por Elizeth Araújo

Dr Lívio: "Diagnóstico tem de ser preciso"  Elizeth Araújo

 

  

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDH), o transtorno bipolar, a depressão e a síndrome do pânico estão sendo diagnosticadas com freqüência cada vez maior entre adolescentes e crianças. Quem revela é o neuropisquiatra Lívio Francisco Chaves, que alerta para o perigo da banalização dessas doenças e do uso indiscriminado de medicamentos. "O diagnóstico tem de ser preciso", diz.  Graduado em Medicina pela Universidade Católica de Petrópolis no Estado do Rio de Janeiro, Lívio se especializou em neuropsiquiatria infantil e na adolescência no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG). Além de atendimento clínico ele desenvolve um trabalho nas escolas públicas e particulares com palestras para que pais e profissionais de educação não confundam 'criança levada' com 'criança hiperativa' ou 'adolescente triste' com 'adolescente depressivo'. "O melhor remédio é o diálogo e a atenção", frisa. Lívio Chaves estudou no Curso Visão em 1995 e 1996 e aos olhos da neuropsiquiatria dá dicas para que os vestibulandos tenham melhor desempenho nas provas. Ele inaugura a sessão de ex-alunos do Visão  no Jornal Sapientia com a seguinte entrevista:

Como a neuropsiquiatria pode ajudar na absorção e fixação do aprendizado, uma vez que os adolescentes estão cada vez mais dispersos seja pela TV, jogos ou Internet?

O que temos visto hoje é justamente isso. Às vezes até a escola passa a ser uma coisa desinteressante para a criança e o adolescente, justamente porque ele tem uma gama de possibilidades. A Internet, a quantidade de jogos eletrônicos e a TV acabam fazendo com que o adolescente perca um pouco o interesse pela escola. Se até um tempo atrás trazia satisfação sair bem numa prova, no dia-a-dia da escola, para alcançar um curso superior de qualidade, isso hoje tem sido deixado um pouco de lado. Não só por esse aspecto, mas principalmente por outras questões mais preocupantes. Nessa fase do ensino médio, em que começamos a fase da adolescência, infelizmente têm sido diagnosticados com cada vez mais freqüência, os distúrbios e transtornos neuropsiquiátricos nessa idade.

Esses transtornos na adolescência são de ordem orgânica ou comportamental?

Eles acontecem justamente pelas alterações hormonais, pela fase da adolescência em si. Temos registrado o transtorno da hiperatividade, o transtorno de ansiedade e às vezes até síndrome do pânico. A depressão no adolescente também está cada vez mais comum, assim como o transtorno bipolar. Lógico que tudo isso está muito relacionado com o histórico e predisposição familiar, porque querendo ou não essas crianças têm tido uma convivência mais separada dos pais. Então quando chega na adolescência, às vezes não tem uma formação sólida justamente porque os pais estão cada vez mais longe de casa e os filhos ficam com funcionários ou outras pessoas da família. Quando chega na adolescência há essa descarga hormonal e o adolescente fica predisposto a ter essas doenças.

O modelo da sociedade em que vivemos praticamente impõe essa distância entre pais e filhos e uma mudança cultural pode demorar. Enquanto isso não acontece o que o senhor aconselha para os pais?

Esse fator ambiental, da ausência paterna e materna, pode ser corrigido no dia-a-dia quando o pai e a mãe estiverem na presença da criança e do adolescente. Muitas vezes os pais querem compensar essa ausência comprando tudo e tentando agradar em termos materiais e se esquecem do lado afetivo. Hoje, sabemos que mais de 80% das doenças neuropsiquiátricas têm história de falhas no campo afetivo no transcorrer da vida dessas crianças e adolescentes. Então, o caminho é tentar aproveitar o máximo possível o tempo com filho na fase da adolescência e com muito diálogo, que é um comportamento cada vez menos visto nas famílias. Não há nenhum medicamente melhor do que uma boa conversa, do que diálogo do pai e a mãe com os filhos. Por mais que o cansaço bata forte é fundamental que os pais procurarem saber como foi o dia do filho, no que ele teve dificuldade, como pode ajudar. É ser realmente amigo da criança e do adolescente e quando chegar numa fase que as dificuldades aparecerem, eles saberão que têm uma base, um sustentáculo para se apoiarem. Quando isso não acontece, ele vai procurar esse apoio em outros grupo e nem sempre vai encontrar coisas boas, pode encontrar coisas ruins.

Um dos problemas enfrentados nas escolas é o déficit de atenção. Como esse problema se desencadeia e como tratá-lo?

No mundo hoje, de 3 a 8% das crianças e adolescentes, na faixa etária dos cinco aos 15 anos, têm Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDH). Até um ano atrás, pensava-se que para uma criança ter esse transtorno tinha de ser desatenta ou hiperativa, ou as duas coisas. Hoje, sabemos que existem  três formas de apresentação do transtorno: ou a criança pode ser só desatenta, que é muito mais comum no sexo feminino, ou ser só hiperativo, ou pode ter as duas formas que é a mais freqüente. No Brasil, todas as pesquisas mostram que entre 5 e 5,5% das crianças nessa idade escolar têm TDH. O grande problema,é que como virou uma 'doença de moda' é preciso tomar muito cuidado, para que outras doenças como depressão, transtorno bipolar e transtorno de ansiedade, que simulam muito, não sejam confundidas com TDH. Às vezes essas crianças são taxadas como crianças com transtorno de hiperatividade, fazem o tratamento de forma inadequada, o que pode piorar os outros sintomas.

A escola pode ajudar neste caso?

De certa forma sim. Tenho um projeto, junto com outro profissional e com serviço de neuropisquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/ UFG) que é justamente um trabalho de conscientização e de levar até as escolas, onde fazemos palestras porque o grande problema do paciente que tem TDH é ser rotulado de hiperativo ou desatento. Esse problema pode acompanhá-lo até a adolescência e ele pode desenvolver outros transtornos como a depressão, transtorno de ansiedade em conseqüência da hiperatividade. Nós fazemos esse trabalho porque sabemos do impacto dessa doença ao longo da vida do adolescente . Só para ter uma idéia, trabalhos recentes mostram que 25% dos usuários de cocaína têm transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e issoultrapassou a adolescência. Ou seja, é um problema que poderia ser tratado até chega na adolescência. A grande vantagem hoje é que sabemos como é problema, onde está, sabemos como diagnosticar e principalmente o tratamento, que deve ser feito de forma adequada. O tratamento que nós falamos não é só medicação. Nem sempre o paciente que tem TDH tem de usar medicamento e nem sempre a medicação é a mesma para todos. Cada caso é um caso. Só 30% dos pacientes que têm transtorno de Déficit de Atenção têm o TDH puro. Os outros 70% têm outras doenças associadas.

A psiquiatria trabalha muito com a parte orgânica e privilegia o uso de medicamentos. O senhor trabalha na área de comportamento, inclusive seu trabalho está nas escolas. Como começou esse trabalho de aliar diálogo, atenção, carinho com a ciência?

Na minha experiência clínica e durante a especialização vimos muitas crianças taxadas como hiperativas e desatentas, usando medicações que muitas vezes ao invés de trazer efeitos benéficos estariam trazendo transtornos muito maiores. O grande problema da hiperatividade hoje é que virou moda. Pediatra e outros profissionais estão tratando o TDH como uma coisa banal e usando medicação. Então temos de lembrar sempre isso: 70% dos pacientes com TDH têm outras doenças associadas e principalmente, 20% desses adolescentes que encontramos com essa doença são usuários de drogas.

 O senhor falou em doenças da moda. Às vezes a pessoa está triste ou indisposta e já pensa que está com depressão ou síndrome do pânico. Não corremos o risco de confundir e banalizar esses distúrbios? O que os pais devem observar?

É exatamente por isso que temos feito esse trabalho nas escolas, com os pais, alunos e professores. Porque sabemos que na adolescência é normal passar por uma situação complicada. O adolescente fica um pouco mais triste, mais recluso, depende muito de personalidade. E nem sempre a tristeza é maléfica. Às vezes o adolescente aprende muito com as experiências negativas. Não há como aprender só com as coisas boas. Então o fato de o adolescente estar triste, ou passando por alguma dificuldade não quer dizer que ele tem de usar antidepressivo ou outro tipo de medicamento. Às vezes ele não precisa nem de psicoterapia. Ele precisa é de um apoio familiar, um apoio da escola, dos colegas, para ajudá-lo a passar por essa fase que realmente é uma fase complicada. É nessa tecla que temos martelado muito, com esse tipo de projeto para evitar que a tristeza e outros sentimentos comuns da humanidade virem doenças. Daqui a pouco não vai mais existir criança custosa, só vai existir hiperativa. Não vai existir mais criança que é 'avoada', mas com transtorno de déficit de atenção e todo mundo vai ter TDH, depressão, síndrome do pânico, transtorno bipolar,...É isso que temos de evitar: a banalização de transtornos e uso exagerado de medicação, principalmente porque temos de lembrar que o desenvolvimento da personalidade da criança e do adolescente vai até 18 ou 20 anos. Tudo o que se faz de bom e ruim nessa fase da adolescência é para o resto da vida. Todos esses medicamentos agem no sistema nervoso central que está em desenvolvimento. Então o uso de medicação pode não ser o tratamento adequado. É por isso que frisamos muito a necessidade do diagnóstico preciso.

A neuropsiquiatria tem dicas aos pré-vestibulandos para que controlem as emoções, tenham calma e equilíbrio e não deixem o nervosismo prejudicar o desempenho nas provas?

É uma questão extremamente importante. Eu sempre falo para alguns adolescentes que vêm ao meu consultório, por experiência própria. Eu terminei o ensino médio no interior de Goiás e vim fazer cursinho em Goiânia. Foi um choque. Eu via aquela quantidade de matérias e olhava pro lado e sempre havia alguém para sair melhor do que eu. Então, o aluno começa a entrar naquele desespero, naquela angústia. Esse é um grande problema que o estudante não pode deixar que aconteça.  O mais importante é o vestibulando tentar se ajudar. A primeira coisa é esquecer que o colega pode estar melhor ou pior do que ele. Outra coisa fundamental é fazer um planejamento de estudo e não tentar estudar tudo ao mesmo tempo porque é muito conteúdo e tentar estudar com calma e tranqüilidade. A ansiedade tem dois reflexos horríveis no nosso desempenho. Primeiro porque deixa a pessoa mais vulnerável em termos não só psiquiátricos e psicológicos, mas também orgânicos em geral. Então é muito comum a diarréia, as dores abdominais, dores de cabeça e gastrite. E ao contrário do que imaginamos, a ansiedade atrapalha a concentração. A pessoa ansiosa tem dificuldades maiores para se concentrar e vai perder, às vezes, mais tempo à medida em que essa ansiedade vai aumentando. A primeira coisa a se fazer não é lembrar do concorrente. É importante lembrar que é uma competição, mas o foco deve estar no planejamento de estudar aos poucos e bem. Principalmente no período de cursinho, o aluno deve esquecer que o resultado tem de aparecer de qualquer forma. O resultado virá aos poucos de acordo com o conhecimento, com o grau de sorte, que conta também no vestibular, mas principalmente o não nervosismo. O nervosismo só tende a atrapalhar os estudantes. À medida em que os adolescentes tentarem fazer dessa forma e não conseguirem resultado, deve conversar com o coordenador da escola, com os pais, com alguém mais experiente. Se ainda sentir que há um transtorno muito grande, que não está conseguindo desenvolver, então deve procurar a ajuda de um profissional na área de saúde.

Leia essa entrevista no Jornal Sapientia, o jornal do Colégio Visão feito por alunos e professores (Jornal Eletrônico)

Frases:

 

"Por mais que o cansaço bata forte é fundamental que os pais procurarem saber como foi o dia do filho, no que ele teve dificuldade, como pode ajudar"

 "Vimos muitas crianças taxadas como hiperativas e desatentas, usando medicações que muitas vezes ao invés de trazer efeitos benéficos estariam trazendo transtornos muito maiores"

 "Nem sempre a tristeza é maléfica. Às vezes o adolescente aprende muito com as experiências negativas. Não há como aprender só com as coisas boas"

 "O mais importante é o vestibulando tentar se ajudar. A primeira coisa é esquecer que o colega pode estar melhor ou pior do que ele"


 


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